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Educação para mulheres refugiadas

Sabias que as mulheres constituem dois terços da população analfabeta mundial e que muitas crianças ainda não vão à escola? Esta situação piora muito para pessoas em movimento, pois se a sua situação não estiver regularizada, as crianças não podem ir à escola e algumas mães estão sozinhas a cuidar dos filhos e filhas num país onde não falam a língua e nem mesmo inglês. Todos os anos que passam à espera que o sistema lhes dê um lar são anos perdidos, sem educação, sem trabalho, sem esperança por um futuro melhor.

O conhecimento desta situação levou-me a decidir fazer um Estágio Erasmus+ num centro para mulheres refugiadas e contribuir para a sua educação. Cheguei ao Halcyon Days Project num momento em que não havia voluntárias e no primeiro mês eu e mais 3 coordenadoras demos todas as aulas das 9h às 16h, 5 dias por semanas. As turmas tinham alunas desde os 14 aos 80 anos, algumas nunca tinham ido à escola antes, outras já tinham terminado cursos, ou seja, não era possível dar uma aula que fosse adequada a todas as alunas, mas tentávamos o nosso melhor com aquilo que tínhamos. 

Quando finalmente começaram a chegar novas voluntárias já foi mais fácil organizar as turmas, partilhar ideias e tornar o centro um local mais dinâmico. Para além das aulas começámos a organizar várias atividades, pois não se aprende inglês só em sala de aula, por isso, com aulas yoga, workshops de cosméticos naturais, atelier de costura e festas, o centro estava sempre cheio de pessoas, vozes e risos.

No início do meu projeto de voluntariado tinha a grande preocupação de planear muito bem as aulas, mas cedo percebi que a improvisação é a melhor solução – por vezes só tinha uma aluna, outras vezes estavam a ter um mau dia e não queriam falar de coisas sérias, noutros chegavam à aula já a falar sobre um tópico que tinha surgido enquanto esperavam que a aula começasse, por isso, nunca tentei impor um sistema rígido e de educação formal pelo qual passei na escola e com o qual escondi parte da minha personalidade.

Quase todas as alunas eram muçulmanas e, por isso, também tomava muita atenção aos temas sobre os quais não devia falar, mas acabámos por falar de tudo e às vezes discordar abertamente, desde religião, direitos, gender roles, até de rapazes — conseguem imaginar o que é ter uma turma de 15 alunas com hijab a mostrarem fotografias de rapazes que acham giros e a compararem gostos? Também não conseguia imaginar, mas no centro éramos todas mulheres, livres e iguais.

Nos meus 5 meses vi muitas alunas a chegarem ao centro – muitas chegaram destroçadas, a maioria começava a ser feliz, algumas partiram para outros países de acolhimento -, mas o pior foi quando era a altura de eu partir para outro destino. Quando chegamos temos uma formação para manter o distanciamento da situação, mas não é possível e não saber o que ia acontecer a esta comunidade com quem tinha partilhado os últimos meses, deixava-me angustiada. Só posso esperar que estejam todas bem e, eu aproveitei para levar todas as aprendizagem para outro país, onde contactei uma organização que trabalha com mulheres migrantes e utilizei os meus fins-de-semana para ensinar novamente inglês a mais um grupo de mulheres inspiradoras que, todos os sábados, mudavam mais um bocadinho o meu mundo! 

Margarida Freitas